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domingo, 31 de agosto de 2014

A Ponte (The Bridge)

    
    A ponte Golden Gate é um dos cartões postais mais famosos dos Estados Unidos, uma construção já considerada como uma das sete maravilhas da engenharia no mundo, e um dos locais mais visitados no estado da Califórnia. Ela liga a metrópole de São Francisco à cidade de Sausalito, tem quase 70 metros de altura em relação ao mar e dois quilômetros de extensão em suspensão. Mas para além da beleza e das proporções espantosas, a ponte esconde um drama: é o segundo local mais escolhido no mundo para cometer suicídio.
    Ao longo do ano de 2004, a equipe do filme, através de câmeras instaladas em vários pontos diferentes, funcionando diariamente, registrou 23 suicídios, dos 24 que ocorreram naquele ano, além de diversas tentativas de suicídios não concretizadas. Além dessas imagens, que perturbam e emocionam, a equipe entrevistou familiares e amigos de algumas das pessoas que foram registradas em seus últimos momentos de vida, ajudando a contar suas histórias e a tentar entender os motivos pelos quais tomaram essa decisão.
    A mim foi impossível não sentir uma profunda tristeza, um sentimento de vazio perante à frágil racionalidade da vida, e até uma admiração por essas pessoas: elas sentiram algo que a maioria de nós jamais será capaz de sentir ou de compreender.
    O mais legal do filme: é um filme bonito sobre um assunto doloroso. O suicídio foi abordado de forma a não condenar ou culpar ninguém. As pessoas mostradas foram tratadas com respeito, assim como sua decisão. Uma das entrevistas, com os pais de um jovem que saltou da ponte, me tocou profundamente: eles compreenderam que, para o filho, saltar era libertar-se.
OBS: Há dois meses, foi aprovada pela autoridade responsável a construção de uma rede de proteção para evitar suicídios. Fiquei feliz com a notícia.

Trailer
Filme completo legendado
Site oficial

Ficha Técnica
The Bridge (2006)
Direção: Eric Steel
Inspirado no artigo "Jumpers", escrito por Ted Friend, publicado na revista The New Yorker em 2003.
Duração: 95 minutos

    

domingo, 23 de fevereiro de 2014

12 Anos De Escravidão (12 Years A Slave)

    Solomon Northup é um violinista casado, pai de um casal de filhos, residente de Nova York, E.U.A, vivendo o ano de 1841. É negro em um país onde a escravidão de afro-americanos não é apenas legítima, como amplamente difundida nos estados do Sul, mas livre, sustentando-se como músico animador de bailes da elite da sociedade local.
    Certo dia, dois homens lhe são apresentados. Estes lhe oferecem um trabalho temporário como músico em um espetáculo que estavam a promover em Washington. Solomon aceita o convite e é levado até a cidade. O golpe praticado pela dupla é revelado quando o violinista acorda acorrentado em um cativeiro. Dali, juntamente com outras cinco pessoas, é levado para um navio rumo a um mercado de escravos na Louisiana.
    Baseado em uma história real, contada em livro autobiográfico homônimo lançado em 1853, o filme tem uma das cenas mais angustiantes a que já assisti. O desconforto dos espectadores no cinema, não apenas nesta cena, como em todas as outras que revelam o sadismo e a perversidade de um sistema que, incrivelmente, sustentou-se durante tanto tempo, defendido por tantas pessoas, é facilmente perceptível. Como não sair do cinema perturbado após ter os sentidos inundados pelas atrocidades que criaturas de nossa mesma espécie foram capazes de cometer?
    Atuações extraordinárias e uma trilha sonora intensa contam uma história que todos devem conhecer.
    O mais legal do filme: Há uma cena belíssima e, ao mesmo tempo, extremamente dolorosa: um grupo de escravos canta "Roll Jordan Roll", canção negro spiritual.

Trailer

Ficha Técnica
12 Years A Slave (2013)
Direção: Steve McQueen
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o, Paul Dano, Brad Pitt, Sarah Paulson, Benedict Cumberbatch
Principais premiações: Filme e Filme Drama (Oscar, BAFTA e Globo de Ouro), Ator para Chiwetel Ejiofor (BAFTA), Atriz Coadjuvante para Lupita Nyong'o (Oscar)
Duração: 133 minutos

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Jobs

    A realização de um filme biográfico tem um grande poder inerente: o de influenciar a visão de uma audiência enorme de pessoas sobre determinada personalidade. A maneira como o roteiro é construído, o destaque que é dado a determinados fatos em detrimento de outros, a edição, a atuação do elenco, além de inúmeros outros fatores contribuem para a nossa interpretação da vida de pessoas reais que acabam sendo transformadas em personagens de filme. Uma vida resumida em duas horas? Impossível não cair em clichês e descontinuidades.
    Assim é o filme em questão, que conta a vida de Steven Jobs, co-fundador, diretor e visionário da Apple, atualmente uma das empresas de maior importância e reputação na área de tecnologia do mundo. A história começa no fim, com Jobs já velho e debilitado (em função do câncer que o levou ao óbito em 2011), lançando o iPod frente a uma plateia encantada. Depois há um salto ao passado, nos anos 1970, onde vemos Steve na faculdade que já havia largado, cheio de ideias e aspirações e a partir daí a história transcorre.
    O filme enfatiza duas vertentes de Jobs: gênio e cretino. Tinha uma habilidade enorme de criar e estimular a criação, negociar, falar a um coletivo, mas era péssimo nas relações pessoais, dando mais importância às suas criações e projetos do que às pessoas e aos amigos. Seu parceiro na fundação da Apple, Steve Woz, disse que o filme não representa bem a realidade, mas fazendo uma breve pesquisa sobre Jobs, dá pra concluir que como ser humano, ele era um ótimo idealizador de máquinas.
    O mais legal do filme: ver o processo de surgimento da Apple e dos computadores pessoais.

Trailer

Ficha Técnica
Jobs (2013)
Direção: Joshua Michael Stern
Elenco: Ashton Kutcher, Josh Gad, Dermot Mulroney, Lukas Haas, Matthew Modine, J. K. Simmons
Duração: 127 minutos

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Vênus Negra (Venus Noire)

    Este filme é baseado em uma história real, ocorrida no início do século XIX na Europa. Saartjie Baartman era uma mulher sul-africana que trabalhava como empregada de uma família de colonos holandeses na Cidade do Cabo. Com 20 anos foi levada pelo irmão de seu chefe para a Inglaterra com o objetivo de fazer apresentações e conquistar sucesso e riquezas. Essa foi a promessa, mas não a realidade. Essas apresentações tratavam-se de exibir seu corpo, já que suas dimensões corporais eram inusitadas aos europeus, principalmente por suas nádegas avantajadas. Em função do formato de seu corpo, Saartjie foi chamada de Vênus Hotentote (hotentote era o nome usado pelos colonizadores europeus para denominar alguns grupos étnicos do Sul da África.).
    A ciência também teve contatos com Saartjie, sempre preocupada em medições e padronizações para diferenciar europeus de africanos, e assim proceder as suas hierarquizações embasadas "cientificamente".
    Este filme é importante por mostrar uma história européia que talvez poucos conheçam: a moda dos zoológicos humanos e das apresentações nos circos de etnias consideradas selvagens ou grotescas. Também traz a tona o caráter duvidoso da ciência feita à época, ainda alheia a conceitos éticos que hoje são imprescindíveis. Mas quanto a contar a história da personagem, acho que filme fica devendo muito. Há um enfoque muito grande nas cenas das apresentações e no corpo da personagem, e pouco na consciência e nos sentimentos dela. Sem falar que há cenas completamente nonsense...
    O mais legal do filme:  Saartjie tocando instrumentos africanos perante o público.

Trailer

Ficha Técnica
Venus Noire (2010)
Direção: Abdellatif Kechiche
Elenco: Yahima Torres, Olivier Gourmet, François Marthouret, Andre Jacobs, Elina Lowensohn
Duração: 159 minutos

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Somos Tão Jovens

    Demorou bastante pra fazerem um filme sobre a história de Renato Russo, um grande nome da música brasileira. Talvez a indecisão entre qual formato seria feito (houve um projeto de documentário) e a possível reação da família tenham adiado tanto a transformação em filme dessa história que não podia deixar de ser contada.
    E que história é essa? Um jovem que lê muito e escuta muita música começa aos poucos a escrever canções, aprender acordes no violão e a andar com um pessoal parecido com ele, enquanto conhecem as bandas punk estrangeiras do fim da década de 1970. Surge assim, entre bebedeiras, discos, discussões e shows, o Rock de Brasília.
   É uma pena que a demora não tenha sido justificada por uma preocupação com a qualidade do filme ou cuidado com a importância dessa produção pra filmografia brasileira. Achei o filme "pouca coisa" pra um personagem de alto nível como é Renato Russo. E por que achei isso? Explico.
    A escolha do elenco baseou-se na ideia de ter atores parecidos com os personagens da vida real. É legal ver atores fisicamente parecidos, ou, até mesmo, os filhos de dois dos integrantes da 2ª banda de Renato, a Legião Urbana. Mas, o que a maior parte do elenco tem de semelhança física, tem de inexperiência em atuação. Além disso, há cenas forçadas, em que trechos ou títulos de músicas de Renato são inseridas nos diálogos. Percebe-se que essa inserção foi proposital e pensada como algo que daria sentido ao roteiro. Mas aconteceu justamente o contrário. A sensação final do filme: Renato Russo merecia algo melhor.
    O mais legal do filme: as cenas das apresentações e dos destemperamentos de Renato.

Trailer (canal oficial)

Ficha Técnica
Somos Tão Jovens (2013)
Direção: Antonio Carlos da Fontoura
Elenco: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Sandra Corveloni, Marcos Breda, Bianca Comparato, Bruno Torres,  Daniel Passi, etc.
Curiosidade: Nicolau Villa-Lobos interpreta seu pai, guitarrista da Legião Urbana.
Duração: 104 minutos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Invictus

    O título deste ótimo filme nos remete logo a ideia de invicto, ou seja, que não tem derrotas em sua trajetória. Relação correta, já que um dos personagens principais da história é um time de Rugby que deve manter-se invicto para ganhar a competição mais importante de sua trajetória. Mas o título do filme também se refere a um poema inglês que inspirou o personagem principal do filme durante seus anos na prisão.
    O personagem principal em questão é Nelson Mandela e o time é a seleção sul-africana de Rugby, os Springboks. O filme conta a história de como o então presidente Mandela tentou, através do esporte, unir uma nação separada pelo racismo. Quando a história começa, o Apartheid (regime segregacionista oficial da África do Sul, que distinguia brancos de negros) já foi extinto (1994), Mandela já não é mais preso político e já se tornou presidente do país. Entretanto, apesar de já não existir uma segregação oficial, a nação ainda é dividida em duas, pois os sentimentos de menosprezo e a tensão entre a minoria inglesa e as etnias africanas ainda persiste.
    Mandela, entre várias iniciativas para construir uma nação democrática multi-étnica, percebe que o Rugby, praticado até então apenas pela elite branca, pode ser usado também para esse fim. A partir dessa percepção, estreita sua relação com os Springboks, principalmente com o capitão, François Pienaar. Dessa relação surge um objetivo maior, importantíssimo para a nova nação sul-africana: conquistar a Copa do Mundo de Rugby de 1995. É um filme belíssimo, com ótimas cenas de jogos de rugby, com atuações fantásticas e uma trilha sonora melhor ainda.
    O mais legal do filme: o elenco das equipes de rugby é composto por jogadores de verdade!

Trailer

Ficha Técnica 
Invictus (2009)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Adjoa Andoh, Tony Kgoroge, Julian Lewis Jones
Curiosidade: O verdadeiro François Pienar auxiliou Matt Damon na construção do personagem para o filme.
Duração: 133 minutos

domingo, 17 de março de 2013

Batismo de Sangue

    Este filme é mais uma produção do cinema nacional entre aqueles que retratam a ditadura militar ocorrida entre os anos de 1964 e 1985, cuja apreciação deveria ser obrigatória para todos os cidadãos brasileiros. Acho louváveis produções como essas, que retratam alguma parte de nossa própria história, muitas vezes escondida ou pouco conhecida da maioria da população. Foi dirigido por Helvécio Ratton, conhecedor de causa, já que foi militante do movimento estudantil nessa época obscura de nossa história.
   Baseado na obra realista homônima de Frei Betto, "Batismo de Sangue" retrata o envolvimento de frades dominicanos com a guerrilha de combate à ditadura, liderada por Carlos Marighella, considerado como o maior inimigo do governo no final dos anos 60. Nessa época, os frades Tito, Betto, Fernando, Ivo e Oswaldo decidem apoiar os guerrilheiros e o movimento estudantil, baseados nos preceitos cristãos de defesa da liberdade e soberania do povo. Esse envolvimento faz com que sejam perseguidos pelo delegado Sérgio Fleury (torturador de marca maior do regime militar), torturados e presos. 
    O livro de Frei Betto, assim como o filme, dá ligeiro destaque à história do seu companheiro Frei Tito, considerado mártir da militância, tendo sido torturado por cerca de 30 dias.
    O mais legal do filme: a dramatização muito fiel de uma história real, que vista e sentida através da brilhante atuação do elenco, nos dá a verdadeira noção de como foi a vida em nosso país de tão pouco tempo atrás. 

Trailer

Ficha Técnica
Batismo de Sangue (2006)
Direção: Helvécio Ratton
Elenco: Caio Blat, Daniel de Oliveira, Cássio Gabus Mendes, Ângelo Antônio, Odilon Esteves, Léo Quintão, Marku Ribas
Principais premiações: Direção e Fotografia (Festival de Cinema de Brasília)
Duração: 112 minutos


domingo, 20 de janeiro de 2013

Jean Charles


    O final desse filme todo mundo já sabe, mesmo antes de assistir. Ele é baseado numa história (triste) verdadeira. Em 2005 Londres sofreu vários atentados na ruas e em metrôs, denominados de ataques terroristas. Houve um reforço no policiamento e nas investigações para evitar novos casos. Foi no meio dessa confusão que Jean Charles de Menezes morreu.
    O filme conta uma história que, não fosse pelo final trágico, poderia ser a história de qualquer imigrante brasileiro trabalhando em um país do hemisfério norte para buscar um padrão de vida melhor. Jean vive em um apartamento apertado com seus três primos e todos parecem ter vindo da mesma cidade interiorana mineira, Gonzaga.
    No filme, conhecemos um Jean Charles esperto e generoso, que faz uso de algo que talvez possa ser chamado de "jeitinho brasileiro": cria alternativas e estratégias para prosperar e ajudar os outros. Além do personagem principal, há Vivian, que ganha destaque como prima de Jean,  passando por uma transformação pessoal desde sua chegada a Londres até o assassinato dele.
    O mais legal do filme: a visão de como é a vida dos imigrantes brasileiros na capital britânica. Não que isso seja uma novidade, mas a atuação do elenco (parte dele é composta por verdadeiros imigrantes brasileiros radicados em Londres) é tão convincente e natural que faz com que sintamos a paradoxal liberdade de se estar em um país estrangeiro, teoricamente mais desenvolvido e com melhores condições, mas vivendo na ilegalidade, distantes de casa e de voltar para ela.

Trailer

Ficha Técnica
Jean Charles (2009)
Direção: Henrique Goldman
Elenco: Selton Mello, Vanessa Giácomo, Luiz Miranda, Patrícia Armani
Curiosidade: Patrícia Armani interpreta ela mesma no filme. Ela é realmente prima de Jean Charles.
Duração: 93 minutos

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland)

   “Envolvente” é uma palavra que descreve bem este filme, que mistura de forma inteligente fatos históricos com ficção. Ambientado na década de 70, ajuda a contar uma parte da história de Uganda, país do leste africano colonizado pela Inglaterra, sob a perspectiva de um jovem escocês recém-formado em medicina. 
    Nicholas Garrigan quer se aventurar pelo mundo. A razão: sua previsão de um futuro maçante sob a égide de pais conservadores. Esta previsão, não dita, porém sentida, é um mérito do diretor, aliás, que consegue, em uma cena simples e brevíssima, demonstrar a realidade de Nicholas. 
    Um giro no globo terrestre e o jovem está na República de Uganda. Ele chega no momento em que o militar Idi Amin tomou o poder através de um golpe de estado. Em pouco tempo, o agora Dr. Garrigan passa de médico em um posto comunitário no interior de Uganda a médico pessoal do presidente Amin. O interessante é a construção de uma interação entre um personagem real (Amin) e um personagem fictício (Garrigan) e eu diria que este é o protagonista da história: o relacionamento entre os dois personagens, sempre no limite da verdade, da tensão e da submissão. 
    O mais legal do filme: o amadurecimento forçado de Garrigan, que passa de um inexperiente jovem médico europeu a uma peça fundamental do círculo de relações de um ditador africano. Sem perceber, Garrigan torna-se submisso e impotente diante das decisões de Amin sobre seu futuro. Seu envolvimento na ditadura cruel de Amin foge de seu controle e, a cada escolha, sua volta pra casa se torna mais distante.

Trailer

Ficha Técnica
The Last King of Scotland (2006)
Direção: Kevin Macdonald
Elenco: Forest Whitaker (Melhor ator: Oscar, Bafta e Globo de Ouro), James McAvoy, Kerry Washington, Gillian Anderson
Duração: 121 minutos